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Ermínia Silva
“Para que uma arte sobreviva ela necessita fazer escola
“
(Annie Fratellini)
Este texto faz parte de um
trabalho de pesquisa que fiz sobre a história do circo no Brasil, como
historiadora. Este interesse tem a ver com a minha origem circense, sou
filha de Barry Charles Silva, e sempre tive a curiosidade de conhecer a
história que as pessoas que vivem debaixo da lona tinham para contar.
Desde pequena, fui de “causo em causo” me acostumando a ouvir relatos de
fatos e situações que iam me mostrando o quanto o circo era um lugar muito
particular, no qual se produzia toda uma sabedoria própria, muitas vezes
desconhecida pelos próprios circenses. Partindo dos seus relatos e de
pesquisas em jornais e livros, procurei estudar a maneira como os vários
grupos circenses foram chegando no Brasil e por aqui foram ficando. Nesta
pesquisa percebi a riqueza de temas que o mundo circense permite para ser
estudado, desde os “causos” que nós circenses escutamos e vivenciamos o
tempo todo, até os temas: criança, educação circense e seus métodos,
família, mulher, arquitetura, teatro, música, entre outros. E neste
sentido muitos artigos podem ser escritos, como este jornal já vem
mostrando. Uma das coisas mais interessantes que fui percebendo, neste
estudo, era como os circenses relatavam as suas aprendizagens para se
tornarem artistas, transformando-se em profissionais muito capazes e
dominando todo conhecimento necessário para isso. O que era mais
interessante de tudo, é que esta aprendizagem era adquirida no interior do
mundo da lona, principalmente pela tradição oral. O circo, no final do
século passado até mais ou menos 1950, era uma importante escola, que
formava seus próprios componentes. A arte circense é, muitas vezes,
considerada como o espetáculo mais antigo do mundo: “(...) o circo é o
último vestígio de um saber antigo, existencial e iniciático. Esse
saber, essa arte ancestral e única que é o circo, só se perpetua graças a
dois mecanismos: a transmissão do saber de pai para filho, e o ensino
proporcionado por uma escola.” (Ziegler, J.) O circo herdou dos
artistas ambulantes e saltimbancos, uma característica importante: a
transmissão do saber de geração a geração. Desde 1770, formaram-se
“dinastias circenses” que saíram da Europa Ocidental. A arte circense era
transmitida de pai para filho. No Brasil, a partir de 1830, registra-se a
presença de várias famílias circenses européias. Muitas chegaram como
saltimbancos, trazendo a “tradição” da transmissão oral dos seus
saberes. Quando os circos foram montados, por aqui, eram formados por
grupos familiares, são os que os circenses chamam de “circo dos
tradicionais”. Esta organização familiar era a base de sustentação do
circo. A transmissão do saber circense fazia deste mundo particular uma
escola única e permanente. O que se aprendia era suficiente para ensinar a
armar e desarmar o circo, a preparar os números ou peças de teatro, além
de treinar as crianças e adultos para executá-los. Este conteúdo tratava
também de ensinar sobre a vida nas cidades, as primeiras letras, as
técnicas de locomoção do circo. Através deste saber transmitido
coletivamente às gerações seguintes, garantiu-se a continuidade de um modo
particular de trabalhar e de montar o espetáculo. Do final do século
XIX à metade do seguinte, é possível observar um circo que desenvolveu
relações sociais e de trabalho específicas, como resultado das várias
formas de adaptação entre o artista imigrante e a consolidação do circo
como uma escola, além das ligações entre as várias famílias circenses -
proprietárias ou não. A este conjunto chamei de circo-família. Ser
circense naquela época significava ter recebido e transmitido, através das
gerações, os valores, conhecimentos e práticas, resgatando o saber
circense de seus antepassados. Não apenas lembranças, mas uma memória das
relações com a sociedade e com o trabalho, sendo a família o mastro
central que sustentava toda esta estrutura. A criança deveria ser a
herdeira e a continuadora do saber circense. O circo-família não
transferia às escolas a obrigação de qualificar seus componentes. O
circense, na primeira metade do século XX, na sua maioria, já nasceu no
circo. O processo de formação e aprendizagem tinha início desde o seu
nascimento. A criança representava aquele que portaria o saber. No ensinar
e no aprender estava a chave que garantia a continuidade do circo,
estruturado em torno da família. "Antigamente toda criança do circo
aprendia, o pai tinha aquela obrigação, e fazia questão do filho
trabalhar. (...) Aprendia tudo sobre o circo, que o pai fazia questão de
ensinar. (...) Era transmissão do pai para o filho, porque ele não queria
que o circo parasse, não morresse. Então tinha esse dom. O pai se sentia
obrigado a pegar o filho: ‘Filho você vai aprender...’, e o que ele sabia
ele transmitia para o filho, e quando via um número, ensinava o filho,
então houve amor pela criança para fazer artista dele." (Armando
Pepino). Aparentemente não havia mesmo como fugir do "destino". Os
filhos representavam o futuro daquele tipo de circo. Os pais, e na falta
destes, algum parente próximo, eram os que ensinavam às crianças - meninas
ou meninos - os primeiros passos para se tornarem artistas. Ensinava-se a
todas as crianças do circo, com idade suficiente no entender dos
circenses, a execução dos primeiros movimentos do corpo. Nem todas as
crianças se sentiam aptas ou queriam aprender números que implicassem
risco; havia no circo as que não podiam executá-los, por problemas
físicos, ou simplesmente por não quererem aprender. Não era a maioria, até
porque a chance de escolha era muito reduzida. Mas nem mesmo nestes casos
deixavam de trabalhar em outras coisas, que não exigissem a destreza
corporal. Entravam em sketchs, atuavam nas peças teatrais, participavam
da organização do circo, trabalhavam na armação e desarmação, na
bilheteria. Era muito comum para estas crianças e jovens, aprenderem a
tocar instrumentos, cantar e dançar. Enfim, os números de risco não eram
os únicos apresentados durante o espetáculo, sempre havia o que aprender.
"Tentaram, tinha meu avô, pai da mamãe, que era um velhão sueco, forte,
ele era mesmo um atleta...tocava violino dando salto mortal...Então ele
tentou me ensinar, como ensinou meus irmãos. Mas não deu, eu era muito
medrosa, para isso eu não dei mesmo. Aí quando meu pai faleceu {1940}, um
dia minha mãe me levou no médico e ele disse que eu tinha dilatação da
veia horta. Então eles, ‘ah, não pode, ela tem coração dilatado’, eu achei
bom demais, porque eu não gostava porque eles insistiam. ...aí eu fui
cantar, inventaram que eu tinha que fazer uma cançoneta, e me vestiram de
baiana (...) aí fui lá, cantava, muito mal, mas o povo batia palma. Eu
parei de fazer a baianinha e passei a ser bailarina. Ele contratou um
professor de sapateado, era um artista mesmo do circo, ele nos ensinava
(...) trabalhei muito nas peças de teatro, aí desde menininha." (Yvone
Silva) A criança circense, no circo-família, era de responsabilidade de
todos. Nas companhias, as crianças eram irmãos, primos, sobrinhos. Já era
costume, na época, chamar "tia" ou "tio" os companheiros de trabalho que
tivessem idade de pai ou mãe, sendo "sobrinhos" todas as crianças que
pertenciam ao circo. As crianças mesmo que perdessem seus pais nunca eram
abandonadas, sempre seriam absorvidas pela “família circense”, e com
certeza virariam artistas. Isto também ocorria com aqueles que não
nasceram no circo, “gente da praça” que fugiam com o circo, ou que
simplesmente a ele se incorporavam. Este "estranho" poderia até se tornar
um tradicional, um formador da tradicional família circense ou um formador
de uma dinastia circense, desde que passasse pelo ritual de aprendizagem
dado por uma das famílias tradicionais. Qualquer pessoa poderia ser aceita
pelos circenses, mas para isso tinham que aprender a sua arte, não bastava
apenas se agregarem para serem figurantes ou participarem de uma grande
aventura. Somente os circenses eram conhecedores da arte de armar e
desarmar um circo, ou um ‘aparelho’. Eles mesmos garantiam a sua segurança
e a do público que assistia ao espetáculo. Era "natural" que tanto
proprietários quanto contratados fizessem parte da montagem de cada
detalhe. Como se diz na linguagem circense "todos tinham que ser bons de
picadeiro e bons de fundo de circo", não bastava só saber executar um
número no picadeiro. Aprender a dar um salto mortal, por exemplo,
muitas pessoas aprendiam, não precisavam de circo para isto. Mas, saber
‘empatar uma corda ou um cabo de aço’, confeccionar um ‘pano’, ‘preparar
uma praça’, ser mecânico, eletricista, pintor, construir seu próprio
aparelho, armar, desarmar, é que diferenciava um artista circense de
outros artistas. A técnica aprendida por meio dos ensinamentos de um
mestre circense era a preparação para o número, mas continha, também, os
saberes herdados dos antepassados sobre o corpo. A transmissão oral da
técnica pressupunha um método, ela não acontecia por acaso, mesmo que não
seguisse nenhum tipo de cartilha. No circo-família todos,
independentemente de terem ou não nascido nele, passavam por um "ritual de
iniciação", cujos vários objetivos incluíam dar acesso ao conhecimento das
técnicas circenses. Isto ocorria independentemente do local onde o circo
estivesse ou a que família pertencesse. A integração como membro do
circo-família tinha o aprendizado como condição de permanência. Naquela
época, ainda não havia profissionais outros que não fossem "artistas
completos", ou seja, não havia "especialistas" que só realizavam uma
função; menos possível ainda era alguém viver no circo como um simples
"apêndice" ou "agregado". A criança seria não só a continuadora da
tradição, mas também um futuro mestre. Para ser um circense tinha que se
assumir a responsabilidade de ensinar à geração seguinte. "Muita criança
eu ensinei no circo (...) muita mesmo. Eu aprendi muito bem, com esse meu
tio, tive um bom primeiro que foi o Hipólito, o Abelardo e o Rogê, meu
tio. Então eu tive bons mestres e quem tem bons mestres, sabe ensinar
muito bem, porque aprende tudo limpinho, tudo claro (...) Eu ensinava tudo
o que eu sabia (...)" (Alice Donata Silva Medeiros). Ao longo de sua
aprendizagem, a criança "aprendia a aprender" para ensinar quando fosse
mais velha. O "ritual de iniciação" - aprendizado e estréia - era um rito
de passagem, a possibilidade de tornar-se um profissional circense. O
contato com a geração seguinte era permanente, havendo um envolvimento
direto na aprendizagem. A partir da adolescência, muitas crianças
começavam a ensinar aos mais novos - irmãos, primos, e outros. O ensino
e a aprendizagem, semelhantes a qualquer outra relação de professor/aluno,
continha mais do que ensinar a deslocar corpo, mais do que comparecer em
horários marcados diariamente. O fim da "aula" não acontecia ao toque do
"sinal". Os mestres estavam presentes para explicar cada momento da
elaboração, construção e manutenção dos ’aparelhos’, do material do circo
em geral; mostrando a relação de confiança e segurança que o trabalho
representava para cada um e para todos. Os circenses sempre indicavam
uma figura que se responsabilizava e possibilitava que se tornassem
profissionais do picadeiro. O condutor do processo de aprendizagem que
formava um artista era considerado um mestre. Mestre da arte circense,
mestre de um modo de vida, mestre em saberes - ou seja, um mestre
"pertencente à tradição", pois durante toda a sua vida participou das
experiências de socialização, formação e aprendizagem, que caracterizavam
o circo-família. O mestre representava aquele que os introduzia "na escola
para entrar no picadeiro". Não cabia a ele apenas o treinamento do corpo e
a preparação para um número específico, tinha que ensinar o artista para
futuramente executar os mais diversos números. Nos circos em que apenas
a família proprietária estava presente, algum parente assumia o papel de
mestre. Quando eram compostos por várias famílias, um artista, com um
pouco mais de idade, era o mestre das crianças. Os pais as deixavam sob
sua responsabilidade, não interferindo nem mesmo nos castigos. Este
artista não recebia nada a mais para cumprir este papel. Para o circense
era natural e obrigatório que alguém se responsabilizasse por ensinar: a
tarefa de ensinar não fazia parte das condições para contratar o
artista. Ser “iniciado” na arte e ser alfabetizado fazia parte do
processo de socialização, formação e aprendizagem. Saber ler e escrever
era necessário para lidar com a parte financeira, para escrever os
programas dos espetáculos, confeccionar cartazes, “fazer a praça”.
Requerer junto às prefeituras a autorização para a entrada do circo na
cidade; determinar o preço dos ingressos, dependente de uma verdadeira
“pesquisa de mercado”, aonde o circo pretendia se instalar; fazer anúncios
e propaganda para publicar nos jornais. No circo-família, ninguém podia
ser analfabeto. Além das razões mencionadas acima, a partir da década de
1910 o circense instala, junto com o picadeiro, um palco para encenar
dramas: é o teatro no circo. Até então, os circenses encenavam sketchs e
comédias. A aprendizagem dos textos destas encenações seguia a regra, era
feita por meio da transmissão oral: de seus próprios familiares ou através
de imitação do teatro e do cinema ou mesmo por meio de trocas dentro do
próprio “mundo circense”. Eram raros os textos escritos para estas
comédias e sketchs neste período. Mas o teatro no circo introduz
definitivamente a linguagem escrita no circo-família. Todo este
processo de trabalho - manuscritos anônimos ou copiados dos folhetos,
adaptações dos textos do teatro para o circo, produções de textos pelos
próprios circenses - pressupunha conhecimento da leitura e da escrita,
além da criatividade gerada por um conjunto de saberes e práticas presente
no circo-família, garantia ao circense a capacidade de encenar peças mesmo
antes da entrada do palco de teatro no circo. Embora a transmissão dos
saberes continuasse a ser oral, a escrita e a leitura foram
definitivamente incorporadas à qualificação “verdadeira”. O teatro
significou um aperfeiçoamento da linguagem escrita e falada, bem como
reforçou a idéia de que a aprendizagem, qualquer que fosse, era
incorporada para produzir e reproduzir o circo-família. Apesar das
dificuldades enfrentadas para inserir-se na sociedade sedentária, como no
caso das escolas, o circo-família não deixa de alfabetizar seus
componentes, contratando pessoas (professores ou não) para ir até o circo,
levando suas crianças a espaços informais para aulas particulares, ou
mesmo fazendo com que os secretários ou os mais velhos, que já sabiam ler
e escrever instruíssem as crianças. Estas estratégias adotadas para
superar problemas vividos com o ensino da leitura e da escrita, junto ao
ensino formal, mostravam que a “tradição” operava de uma maneira positiva,
sempre sob tensão, possibilitando que os circenses fossem alfabetizados
como uma tarefa de qualificação para dentro do seu “território”. Estas
estratégias eram tão usadas, que pode-se até afirmar que o índice de
analfabetismo no circo-família era quase nulo, muito diferente do índice
da população brasileira naquela época.
FONTE: Erminia Silva -
“O circo - sua arte e seus saberes - O circo no
Brasil do final do século XIX a meados do XX” - Dissertação
de Mestrado defendia em março/1996 - Departamento de História do Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP.
mina.silva@uol.com.br
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