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Artigo publicado na revista
Educando com Arte

Rogério Sette Câmara
(diretor da Escola
Spasso Escola Popular de Circo)
Em Belo Horizonte, o que
existia de circo eram grupos de teatro que utilizavam um pouco dos
elementos circenses, principalmente perna de pau e palhaço. Havia também
atividades esporádicas, como as oficinas ministradas pela Escola Nacional
de Circo no Festival de Inverno.
A Spasso nasceu em 1997, da vontade de criar um local onde a atividade
circense fosse mais sistematizada e englobasse diversas modalidades, como
o malabarismo, equilibrismo, aéreos e outros.. Mas o que nos deu base
para abrir a escola foi a acrobacia. Quando começamos a pesquisar
sobre o circo, descobrimos que a base do próprio circo é a acrobacia. E
sendo ela a base, nos sentimos mais à vontade para começar um trabalho
de circo em Belo Horizonte, pois somos, eu e o Júnior (Inima Santos Júnior)
somos formados em Educação Física, trabalhamos muitos anos com a ginástica
olímpica - mas a nossa praia mesmo era a capoeira. Desde 1980, antes
mesmo de eu fazer educação física e circo, eu já trabalhava com
capoeira e com arte-educação. Sempre com grupos heterogêneos, formados
por meninos que não podiam pagar com aqueles que podiam. E é isso que
fazemos até hoje na Spasso. Não damos prioridade para os bolsistas nem
para os pagantes. A gente quer misturar. Juntar os que podem com os que não
podem. Hoje a SPASSO tem cerca de 35 a 40 meninos bolsistas.
Voltando à acrobacia, em nossas pesquisas descobrimos que no ocidente,
ela desenvolveu-se de uma forma mais popular. Veio das ruas, das rodas de
saltimbancos. Já no Oriente, era mais militarizada, derivou-se das artes
marciais como o Kung Fu.
Descobrimos também que a acrobacia dos circos é baseada na cultura acrobática
ocidental, especialmente européia. Tanto é que os nomes de saltos, números,
aparelhos, em sua grande maioria, são franceses. Por exemplo: charivari
(um conjunto de artistas fazendo evoluções acrobática), dandys
(acrobacia em conjunto) e outros como canastilhas, banquilhas, estafas...
Até hoje a nomenclatura do circo é européia, com movimentos derivados
daquela cultura. Na minha concepção foi essa cultura que gerou a ginástica
olímpica que foi se esquematizando, estabelecendo regras até chegar ao
esporte. O cavalo, a argola, a barra fixa, aparelhos da ginástica olímpica,
tradicionalmente eram usados no circo.
Sabendo que a cultura acrobática do circo é basicamente européia, nos
fizemos a seguinte pergunta: qual é a contribuição que a cultura
brasileira pode oferecer à acrobacia circense? E se a cultura acrobática
européia é a ginástica olímpica, qual seria a nossa? E mais uma vez,
caimos na capoeira.
Não estou querendo dizer que queremos substituir a ginástica pela
capoeira, não é este o nosso intuito. A idéia é a de começar a nos
situar para ampliar os nossos horizontes
A gestualidade do brasileiro é diferente
dos outros povos. O flick –flack do brasileiro é diferente do russo. Em
termos de pontuação de ginástica olímpica, nós podemos estar
perdendo, mas em termos de expressividade do movimento, a gente ganha.
A capoeira é uma atividade muito
expressiva. Não que a ginástica olímpica não seja, mas a capoeira é
uma expressividade que nasceu como uma forma de resistência
e luta de um povo escravizado e sofrido. E ela foi crescendo até se
tornar um jogo lúdico. E o jogo é a parte mais rica da capoeira. O que
acontece de bom na capoeira é a energia que tem dentro da roda que só o
capoeirista sente. Os capoeiristas amam a capoeira porque existe o jogo, a
troca.
Então a capoeira foi desenvolvendo uma
nomenclatura e gestualidade acrobática própria. E as pessoas que hoje
trabalham no mundo inteiro com acrobacia quando vêem os movimentos de
capoeira, tem que pedir para o capoeirista repetir duas, três vezes. A
pessoa pode saber muito da ginástica olímpica, mas fica sem compreender.
Como se faz aquilo? De onde se tira o impulso?
A capoeira quanto manifestação para a
acrobacia brasileira é um primeiro foco de estudo. Eu não posso
apresentar uma roda de capoeira como um espetáculo de circo. Lá na França,
no Canadá, pode ser até lindo. O Archaos, por exemplo, levou uma trupe
de capoeiristas da Senzala para se apresentar no circo. Foi o maior
sucesso, o público aplaudiu o exótico. Já no Brasil, isso não
funcionaria.
Eu vejo mais possibilidades da capoeira
enquanto movimentação, disciplina acrobática, ritualização. A energia
que tem dentro de uma roda de capoeira ou em um terreiro de candomblé é
o que Grotowski e Eugênio Barba, buscam com o teatro antropológico.
A ritualização da capoeira é muito
importante. Saber como entrar e sair de uma roda, os diversos toques do
berimbau, a improvisação...A capoeira é sempre improvisada. Por que
muita gente pensa que as coisas na capoeira são combinadas anteriormente?
Por quê? É que os movimentos circulares permitem emendar uma coisa na
outra. Trabalhar em giro possibilita que o outro vá entrando. Na capoeira
tem o jogo de dentro, tem um jogo mais próximo, um acompanhando o outro,
tem os jogos mais longe, tem os jogos acrobáticos que são ainda mais
longe. E aí que vem os estilos da capoeira – o toque de Angola , o
Regional.
E tem também a falsidade. A capoeira tem
uma grande falsidade:
- Ai, eu tô machucado. Tô machucado! Vem aqui, vem aqui... E tome-lhe um
tapa na orelha.
Essa coisa de estar mentindo, representando um para o outro é muito
importante na capoeira. Ela joga com a falsidade que é um elemento bom
para o artista perceber sua capacidade corporal. Porque eu não falo que
estou doente ou cansado, eu mostro corporalmente.
A capoeira tem uma bagagem de informações
que nos faz pensar, estudar e experimentar.
Não temos uma coisa pronta como acrobacia para capoeira ou a capoeira
para o circo. O que temos hoje são fragmentos de coisas que achamos
importantes E que dentro disso possamos estar estudando, pesquisando e
discutindo mais sobre outras formas de acrobacia.
Não temos um grupo de acrobatas feras como pretendemos ter um dia. Mas já
temos muitas coisas legais: criação de movimento de deslocamento em
cena, criação de ligação de um movimento acrobático da ginástica
terminando em movimento de capoeira., fusão de movimento da capoeira com
dança. Nas nossas aulas de acrobacia, procuramos sempre misturar a
capoeira. Por ex.: emendar o rabo de arraia com a pantana, fazer diversos
movimentos acrobáticos num círculo pequeno, emendar movimentos acrobáticos
e semi-acrobáticos. O break também usa vários movimentos acrobáticos e
semi acrobáticos da capoeira, como o macaco, a queda de rim, movimentos
curtos pequenos mas que servem para deslocar. Quando a capoeira entrou em
S. Francisco o break estava começando e daí, mesmo que indiretamente,
influenciaram-se. Muitos movimentos particulares do break como a rodada de
cabeça é da capoeira, não digo que seja da capoeira e passou para o
break, mas são influências entre pessoas que vem da mesma pujança. O
hip hop nasceu dos negros lá nos EUA, como a capoeira aqui no Brasil.
A utilização da capoeira no circo:
1. O aspecto cultural - Se estamos formando
um artista circense quanto mais cultura ele tiver, melhor. Eu não preciso
só falar da cultura circense, ma também de outras.
2. O ritmo - O ritmo da capoeira tem uma
marcação básica, tempo binário, mantra. Essa pulsação como
aprendizado é muito importante.
3. A movimentação - O Kung Fu e o karatê
são parados, já a capoeira é em movimento, é a única luta que tem música.
O molejo da capoeira, a movimentação dentro de uma roda, a relação a
um toque rítmico e musical e a um outro adversário, começa a criar
percepções dentro da cabeça do artista que amplia sua movimentação.
Se eu sou um artista de teatro ou do circo, quando estou em cena preciso
me transformar numa outra pessoa. O meu tônus tem que ser mudado, assim
como a minha gestualidade. E a capoeira começa a desenvolver no formando,
características importantes para uma pessoa que vai estar fazendo cena
daqui a a pouco. Além disso tem a movimentação semi-acrobática,
movimentos criados pela capoeira que a gente não vê em lugar nenhum. O
desenho acrobático da capoeira é diferente da ginástica, o espaço também.
A roda é pequena, exige muita agilidade e destreza do capoeirista.
Aquilo que o Raul Olimecha escreveu é
verdade. No nordeste, todos os dias, os caras inventam saltos novos. Tem
um tal de envergado. Se eu tentar explicar para vocês o que é um salto
envergado, vocês vão rir de mim. É um salto que passa com as duas
pernas por cima.
- É quase uma estrela sem mão.
- Não! É uma armada voadora.
- Uma armada dupla?
- Só que a armada dupla, passa uma e outra perna, o envergado passa com
as duas ao mesmo tempo. Foi inventado pelo Envergado, um capoeirista do
Ceará, e recebeu o nome do seu inventor. Hoje, o Brasil inteiro faz esse
salto.
Pode ser até pretensão, mas na hora em
que os brasileiros que fazem circo começarem a utilizar a capoeira em pról
da apresentação, da encenação, as pessoas que trabalham com acrobacia,
de todos os lugares do mundo, não vão entender aquela movimentação.
Rogério Sette Câmara -
spasso@gold.com.br
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