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José
André da Silva (Pé de Ferro)
Nasci
em Vitória de Santo Antão (PE), no ano de 1936. Meu nome é José André
da Silva, mas me chamam Pé de Ferro. Quem me deu este apelido, que acabou
virando nome artístico, foi o Noé, dono de uma garagem de bicicletas lá
no Recife. Eu sempre gostei muito de bicicletas, mas como não tinha
dinheiro pra comprar uma, alugava, nos finais de semana, as do Noé. Eu
corria muito, mesmo assim não estragava as bicicletas. Por isso, um dia,
ele me disse: Zé, você é o maior ciclista daqui, é o Zé Pé de Ferro!
O Noé me incentivou muito a participar de uma corrida que ia ter lá em
Recife. Eram 10 corredores, cada um entrava com 50 mil réis, e o
vencedor, levava os 500. Eu consegui juntar o dinheiro, me inscrevi, corri
e ganhei. Foi então que o apelido pegou. Virei Pé de Ferro.
Com o dinheiro do prêmio, comprei a minha primeira bicicleta, meia
desmantelada, nem cambio de marcha tinha, mas era minha. E com esta
bicicleta eu ganhei minha primeira corrida na 2o categoria. Aí o Esporte
Clube lá do Recife me chamou. Me deram uma bicicleta alemã pra eu
correr, não era minha mas ficava na minha mão, e com ela, passei para a
1o categoria.
Fui campeão Pernambucano por 3 anos consecutivos, invicto. Corri o
campeonato brasileiro de ciclismo em São Paulo, a famosa 9 de julho.
Corri a 1o volta do Estado do Rio de Janeiro – 1410 kms, a corrida de
Vitória e outras. Sempre representando aFederação Pernambucana de Ciclismo.
Mas eu não ganhava dinheiro com
o ciclismo; só saía medalha, taça, flâmula. Os clubes davam uma
sapatilha, ajeitavam a bicicleta, forneciam medicamentos, inclusive
alimentação – eu almoçava no Palácio do Aluminío, onde só tinha
comida boa e gente fina. Mas o dinheiro que era bom, eu tinha que tirar
como marreteiro. Aí eu cansei, caí fora, e fui trabalhar de pedreiro.
Foi quando chegaram os Irmãos Temperani, lá no 13 de maio que era onde
costumava armar circo no Recife. Eu não fui assistir, mas o Ivanildo, um
colega meu, um tecelão, que também gostava muito de bicicletas, foi. E
ficou doido com o número deles: 4 homens e 4 mulheres, fazendo aquele
festival de bicicletas no picadeiro.
Quando chegou em casa, ele entortou sua bicicleta, deixou mais ou menos do
jeito da deles, e começou a ensaiar. A gente se encontrava todos os
domingos, e eu também me empolguei com aquilo. Entortei miha bicicleta e
comecei a ensaiar, a fazer o que ele dizia que os Temperani faziam. Em uns
dois meses, eu já estava fazendo, um pouco desequilibrado, mas já
fazendo várias posições.
Um dia, minha guia quebrou e eu fiquei liso, sem um tostão. Precisava
fazer a feira para minha mãe. Fui para o Recife, no caís do porto, num
lugar chamado Rua da Guia, onde os estivadores se reuniam, e comecei a
fazer as posições na bicicleta. Juntou gente. Um estivador, amigo meu,
disse: por que você não cobra um dinheirinho do povo. Eu disse que era
essa minha intenção, mas que estava com vergonha. Aí ele pegou o
chapéu e disse: todo mundo aqui vai colaborar com o rapaz. Ele deu uma
corrida e me passou o chapéu. Ajeitei e contei o dinheiro, tinha 170 mil
réis, valia por uma semana de um trabalhador.
Meu amigo me disse: vá agora, para a Duque de Caxias, que lá tem um
movimento bom. Eu fui. Fiquei mais de uma hora fazendo as posições, até
tomar coragem de pedir dinheiro pro povo.
Já
estava escurecendo qando eu segui para o Diário de Pernambuco. Lá, fui
mais ligeiro e o resultado foi melhor ainda. Quando deu oito e meia, fui embora. Os dois bolsos da minha calça estavam
socados de dinheiro. E olha que naquela época, os bolsos eram bem mais
fundos que os de hoje.Quando cheguei em casa, chamei minha mãe e comecei a tirar dinheiro do
bolso e jogar em cima da cama. Ia tirando e jogando. Minha mãe ficou
apavorada: você roubou esse dinheiro, Zé? Não, mãe, foi o povo que me
deu!
No sábado seginte, eu me mandei pro caís. No final do trabalho, meu
amigo, o estivador disse: volte amanhã, que no domingo muita gente vem
passear no caís para ver os navios. Eu voltei. E entre sábado e domingo,
ganhei um dinheiro que nunca tinha visto na minha vida. Aí eu tomei gosto
pela coisa.
Passava a semana inteira ensaiando e construindo
novos aparelhos. Comecei com a bicicleta que desmonta. Mas como eu nunca
tinha visto, tive que fazer umas 4, 5 vezes, pra conseguir acertar. Fiz de
um jeito não deu, fiz de outro também não deu. Fiz com a borboleta, mas
na hora de desencaixar não dava. Eu lutei, lutei, lutei, até que arrumei
um jeito, e a bicicleta acabou ficando perfeita. Depois, fiz a rodinha sem
celim e o monociclo alto. Durante as apresentações, eu aunciava: semana
que vem tem novidades.
Fiquei dois anos e tanto na praça do Recife. Dava 3 horas da tarde, e o
lugar onde eu me apresentava já estava cheio de gente. Se acaso eu me
atrazasse, o público reclamava: chegou tarde hoje, hem rapaz?
Depois, quando a praça caiu um pouco, eu fiz uma carrocinha, onde eu
colocava a bicicleta que desmonta, o monociclo, a roda e a valisinha de
guardar dinheiro, engatei nela a bicicleta de truques e ó, caí no mundo.
Fui para Garanhuns, Caruaru, João Pessoa, Natal. De trem, subi até
Fortaleza, e desci até Maceió.
Aí eu fui trabalhar no circo do Garrido e do Carioca, acho que se chamava
Hong Kong. Fiquei quase dois anos com eles, até ser contratado pela
Monark. Viajei todo o Brasil durante oito anos, fazendo apresentações
para a Monark. O dinheiro não era muito, mas era seguro.
Quando saí da Monark, fiquei um tempo de marreteiro, até montar o meu próprio
circo, o Circo Pé de Ferro. No começo era um pano de roda, mas com o
tempo, ganhou cobertura. Fiquei por 8 anos no estado da Bahia, até
quebrar, e fixar residência aqui em Camaçari. Atualmente, trabalho com
vidro: transformo garrafas em copos, vazos, jarras, que vendo nas feiras
livres. O que mais vocês querem saber?
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