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Joval
Angélico Pereira
“O homem que nasce para viver em Circo é um predestinado. Tem a sorte
de conhecer o mundo, conhecer pessoas, fazer amigos. Tenho grandes amigos
feitos no mundo circense, amigos que prezo, admiro e respeito até hoje:
Roger Avanzi, Golocioba, Bianor Batista, Pindoba, Charles Fekete e tantos
outros amigos, tantos outros irmãos… No Circo criei a minha família,
vi nascerem meus filhos. A Casa de Lona era o meu mundo. A magia do
trapézio, o vôo de aventuras, o devaneio do Teatro... Tempos remotos,
mas que me fazem envelhecer com calma e dignidade por ter tido a ventura
de vivê-los – e vivê-los intensamente. O “raiar do Sol e o suspender
da Lua” traduzem de forma primorosa a vida circense: O raiar do Sol –
é a dura realidade da vida: armar e desarmar, torcer por público,
esperar, esperar... O suspender da Lua é a magia do espetáculo, é a luz
da ribalta, é o aplauso... Sou um homem feliz e orgulhoso por ter tido a
alegria de ter sido um ator circense. Se pudesse voltar no tempo,
escolheria o Circo novamente.”
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Leda
Rios
Durvalina Feitosa Pereira
“Cantar é mover o som... encontrei nestas palavras de Djavan a
explicação para o que sinto quando canto. Sou feliz por ter vivivo no
Circo, especialmente no Nerino, onde encontrei amigos que até hoje
preservo, como Roger Avanzi. Tive a oportunidade de conhecer o velho
Nerino e Madame Armandine, Gaetan Ribolah, Alicinha, Wily, Ruy e Alda
Lima, Linda Paz e Garrido, que foram pessoas importantes em minha vida.
Sempre acompanhando meu velho, cantei com muita paixão um repertório bem
variado, do romântico ao samba rasgado. Me vesti de baianas e cetins, e
sentia no palco uma emoção grande, dessas que arrepiam a pele. A minha
sensibilidade musical existe até hoje e, graças a Deus, os meus filhos
herdaram de mim essa alegria e “viagem” que somente música e perfume
despertam. Afastada da vida circense há apenas 30 anos, me considero
feliz por ter tido a oportunidade de conhecer de perto esse nomadismo que
até hoje desperta a curiosidade do público.”
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Joval
nasceu em Ilhéus e foi criado em Valença, ambas cidades do Recôncavo
Baiano, no dia 22 de abril de 1919. Filho do comerciante de cereais
Antonio Queiroz Pereira e Ermância Queiroz Pereira. Desde criança alimentava o sonho de satisfazer a sua maior vontade:
conhecer o mundo. A monotonia da cidade pequena chegava a incomodá-lo,
apesar de ter sido uma criança feliz, Sentia uma inquietação muito
grande dentro de si. Queria conhecer o mundo, pessoas, lugares
diferentes... Perdeu o pai aos 10 anos de idade e, diante das dificuldades financeiras,
foi morar em Ilhéus com a sua mãe e os três irmãos: João, Joí e
Joína, onde, aos 14 anos, começou a atuar como Operador no Cine Teatro
Ilhéus, cujo salário era para colaborar com a sua família.
Em 1937, já com 18 anos de idade, sentiu-se maravilhado com a chegada à
cidade do Circo Havaí – o primeiro em que trabalhou em sua vida. A
magia dos artistas o encantava. A “Casa de Lona” parecia um convite
tentador para a realização de todos os seus sonhos: “Correr Mundo!”.
Sem nenhuma hesitação, ofereceu-se para ir embora com o Circo, mesmo sem
saber atuar no picadeiro. Nos seus tempos de Operador no cinema de
Ilhéus, aprendeu a desenhar os cartazes dos filmes que a casa
apresentava. Esta foi a sua primeira função no circo: pintor de
cartazes. Foi-se embora viver a sua maior aventura.
Ali aprendeu a ser trapezista e palhaço. Continuava encantado com a vida
circense e a cada dia tinha a certeza absoluta de que fizera a escolha
certa. Também neste período teve a sua experiência e contato com os
Ciganos, com quem muito aprendeu.
Nas suas andanças, em 1941, já com Circo J. Lima, chegou ao interior de
Alagoas no povoado Pedra, atual cidade de Delmiro Gouveia.
Na sua primeira exibição no Trapézio, avistou a morena faceira, cheia
de encanto e mocidade que seria a sua esposa – os dois namoraram e
casaram-se em apenas 15 dias, na data de 7 de agosto de 1941, na Vila da
Pedra.
Durvalina
Feitosa Pereira – Leda Rios, natural da Vila da Pedra, nascida em 11 de
maio de 1921, filha de Luiz Feitosa de Alcântara e Maria Isabel de
Alcântara seria a sua companheira na jornada circense. Com a sua linda
voz e jogo de cena natos, Leda Rios casou-se com Joval Rios e o seguiu na
vida que também para ela era o sonho. A bucólica Vila da Pedra nunca
havia sido a sua cidade favorita. Amava sua terra natal, mas, como o
marido, queria ir mais além.
Trabalharam no Parque de Diversões Versailles, apresentado-se já como
ator e ela como cantora, esperando seu primeiro filho, Tairone Feitosa.
Ao deixarem o Parque de Diversões, montaram a Troupe Versailles e
continuaram suas andanças em plena 2ª Guerra Mundial, sobrevivendo com o
que podiam adquirir no trabalho.
A vida não era fácil, mas eles estavam felizes. As viagens eram
verdadeiras aventuras, pois iam desde os caminhões, barcos, troles e
trens até o lombo de cavalos, a exemplo da época da Guerra, onde iam aos
lugares mais estranhos para fazerem apresentações, como cemitérios,
alojamentos de soldados que estavam combatendo na guerra, e tantos outros.
Em 1946, ingressam no Circo Teatro Fekete, onde a veia artística do
teatro se manifestou de forma inesperada: viveu o papel de Cristo, na
tradicional Paixão de Cristo que até hoje é representada nos circos que
ainda sobrevivem no Brasil. No Circo Fekete teve grandes amigos, como Bob,
Charles, Eros Arruda, Nini, Raquel e, principalmente Alberto Fekete que,
de certa forma foi um mestre, lapidando-os na arte de interpretar. Segundo
depoimento de Joval Rios, poucos teatros no Brasil tinham a qualidade de
montagem de peças teatrais como o Circo Fekete. Grandes épicos eram
levados, como Os Miseráveis e A Queda da Bastilha.
Deixando o Fekete, montou novamente a sua Troupe – agora com o nome
Joval Rios e seus Artistas. Mais maduros, montavam esquetes e pequenas
inserções teatrais. Dessa Troupe surgiram nomes de destaque na música
brasileira, como é o caso de Waldeck Artur Macedo – o Gordurinha –
autor de Súplica Cearense, Bianor Batista e Nelson Roberto.
Em 1949, inaugura juntamente com Barreto Júnior, como primeiro galã da
Companhia, o Teatro Al Mare, em Recife (PE), interpretando o personagem
Artur, da alta comédia Amor, de Oduvaldo Viana.
Permanece atuando com Barreto Júnior, mas a sua vontade de conhecer novas
pessoas, novos lugares, o fez aceitar o convite do Circo Nerino em 1951.
Na companhia circense fez grandes amigos, como o próprio Nerino, Palhaço
Picolino e proprietário do circo, sua esposa Armandine Avanzi, Roger
Avanzi que o fez ingressar na Maçonaria em Março de 1952, em Fortaleza
(CE).
Do Nerino tem, talvez, as melhores recordações de sua vida de artista,
pois foi ali que interpretou excelentes papéis, além de ter feito
amizades que sobrevivem até hoje.
Volta, em 1954, à Companhia de Barreto Júnior, em Recife (PE) e teve aí
a oportunidade de conhecer e atuar nos grandes teatros do Nordeste do
Brasil e, com muita honra, atuar no palco do Teatro Amazonas, para ele um
dos mais bonitos e pomposos do Brasil. Dividiu o palco com grandes atores,
como Lúcio Mauro. Ambos eram, na época, os galãs da companhia.
Atuou na TV Excelsior de São Paulo. Nessa época, mudara suas atividades:
trabalhava como empresários de times de Futebol e apresentava-se na
televisão.
De volta à Recife, foi contratado como cenógrafo da TV Jornal do
Comércio, como cenógrafo, ao lado de Maéber Lima, seu grande amigo. Fez
várias atuações nos tele-teatros que a empresa apresentava em sua
programação atuando como ator.
Em 1972, depois de trabalhar por vários anos na Companhia Agro Fabril
Mercantil como mestre de expedição (Delmiro Gouveia), monta o seu
próprio Circo – Pavilhão Nacional, e segue viagem novamente pelo
sertão de alagoas acompanhado de sua esposa.
O circo perde o espaço, pois para ele a parte mais importante seria o
teatro. O Pavilhão Nacional não tinha picadeiro e os seus espetáculos
seguiam o estilo de Revista.
O empreendimento não dá certo financeiramente e, em 1974, instala-se
definitivamente em Delmiro Gouveia, onde reside até hoje.
Ele aos 83 anos, ela aos 81, afirmam que a vida não poderia ter sido mais
generosa com eles. Sonharam juntos um sonho que deu certo. Às vésperas
de completarem 62 anos de casados, são pais de quatro filhos: Tairone
Feitosa, Joval Pereira Filho, Luiz Antonio e Hermância Feitosa, pais de
seus netos, continuações de suas existências.
Mesmo morando modestamente há 30 anos na Rua Nascimento Bandeira, nº 49,
no centro da cidade de Delmiro Gouveia, rememoram com muito carinho cada
fase de suas vidas, grande parte delas dedicada à Arte. Para Joval, o
orgulho de ter sido um artista atuante, merecedor de parabéns por parte
do grande Procópio Ferreira, pisado desde os palcos mais simples do
mambembe aos grandes palcos do Brasil, ter conhecido o Brasil ao lado da
mulher que escolheu como companheira e que o ajudou incansavelmente na sua
trajetória artística como esposa e como cantora morena, de voz
aveludada, que ia do samba ao bolero com a mesma facilidade, torna o
passar dos anos mais amenos. Abdicou com suavidade aos impulsos da
juventude e adquiriu a serenidade que só os anos ensinam.
Joval Rios e Leda Rios festejaram suas Bodas de Ouro (50 anos de casados)
em 1991 e, recentemente, em 2001, suas Bodas de Diamantes (60 anos) ao
lado de seus filhos, netos e bisnetos, genro, noras e amigos, dando um
claro exemplo para todos de que a vida vale a pena “quando é guiada
pelo acaso, movida pelo sonho e vivida com paixão”, palavras de Tairone
Feitosa na ocasião das Bodas de Ouro.
Hermância Feitosa Pereira
Na
manhã do dia seis de dezembro de 2002, início de uma nova Lua Nova, Joval
Rios espalmou a mão e disse sua última fala: – “Tenham
calma…”
Então, a cortina baixou, ele partiu nos primeiros raios do Sol para
desfilar sua arte e viver seu amor pelo Teatro e pelo Picadeiro no
Grande Circo da Eternidade. (Tairone
Feitosa)
Joval Rios
* Ilhéus, BA
22.04.1919
† Delmiro Gouveia, AL 06.12.2002
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