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Bicho
de São Sererê (Chacovachi)
Verônica
Tamaoki
Revista
Anjos do Picadeiro 3 - 2001
O
bicho de São Sererê, segundo Plínio Marcos, é meio camelô,
meio artista, e o seu picadeiro é a rua.
A cobertura do meu circo é o céu! Dizia Elias Bismarck, mestre de muitos
bichos.
Tigre, depois de uma carreira de flip-flaps e saltos mortais, desafiava a
estrela da ginástica olímpica da época:
- Aí, Nádia Comanéti, quero ver você saltar no chão da praça.
Já o Alexandre, enfiava pregos no nariz, com um martelo, cantando
boleros. Como cantava bem o negro Alexandre.
Há muito não via um bicho. Plínio Marcos, Elias, Tigre e Alexandre já
morreram. É verdade que há pouco tempo estive com o Cobra Mansa. Mas o
Cobrinha não está bicho de São Sererê, não deixou de ser, mas
atualmente não está. Não vende mais pomada de peixe boi, não exibe
mais o peixe elétrico, não salta mais por dentro do aro de facas, não
roda mais o chapéu nas praças. Ele agora se dedica exclusivamente à
capoeira de Angola.
Então, quando vi Chacovachi atuar no picadeiro dos Arcos da Lapa, para
uma platéia endoidecida, na madrugada de uma sexta-feira de lua cheia,
exultei: é o bicho de São Sererê.
Noite
argentina na Lapa
Lá em cima, a lua cheia.
Cá embaixo, a rua cheia.
Noite hetaíra. Oswald de Andrade
A platéia nem aí. Não estava ali pra ver circo,
transbordara dos cabarés e das ruas da Lapa.No chão, um pó branco
delimitava o círculo sagrado.
Que pó era aquele?
Farinha, açucar ou pirlimpimpim?Lá em cima, a lua cheia.
Cá embaixo, a rua cheia.
Noite hetaíra. De repente, começou.
Chacovachi adentrou o círculo.- Boiola!
- Babaca!
- Maluco!Temi pelo colega. Impávido, ele caminhouu até o centro do círculo.
E então, aconteceu o pior: ele falou.
A galera não perdoou o seu portunhol:
- Fala direito.
Mas Chacovachi, como já disse é bicho de São Sererê. E em pouco tempo,
a platéia estava na palma da sua mão. Até ôla fizemos com ele.
Chacovachi convidou um rapaz a entrar na roda.
O rapaz relutou, mas acabou cedendo. Três passos adiante, Chacovachi,
gentilmente, pediu que o rapaz deixasse a cerveja no chão. Não ficava
bem entrar na roda com uma garrafa na mão. Mais uma vez o rapaz cedeu. Três
passos adiante, Chacovachi, num pinote, foi até a cerveja e a bebeu num
gole só.
Olho aberto, meu filho, com os bichos de São Sererê.
E a noite argentina adentrou a madrugada.
Números se sucederam, aéreos e de pista,
mas nenhum deles com a força de comunicação do apresentador-palhaço.
Até que entrou na roda o bailarino do diabolô,
E o deus da dança portenha baixou na Lapa.Na platéia, os corpos balançavam
e os olhos não sabiam se seguiam a dança do bailarino ou a do diabolô
quando o pau quebrou ao lado.Pernadas, socos, pontapés e garrafadas. Um
golpe errado e o gerador que iluminava a cena foi nocauteado.Black-out.
Gritos, vaias, xingamentos e logo depois, o silêncio das descobertas.O
bailarino do diabolô, iluminado pela lua cheia, continuava a bailar. E o
diabolô, que era branco, ganhou luz própria e toda vez que subia quase
encostava na lua. Noite hetaíra.
vtamaoki@terra.com.br
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